Uso excessivo de telas intensifica casos de ansiedade e depressão entre jovens

Dependência tecnológica preocupa especialistas e afeta saúde mental de adolescentes e jovens adultos

Uso excessivo de telas intensifica casos de ansiedade e depressão entre jovens

SANTOS, SP —“A internet ajudou a cavar ainda mais a minha própria cova e não sair do lugar onde eu estava”. A afirmação, da estudante Júlia Morgado, de 19 anos, revela uma realidade cada vez mais comum entre jovens adultos e adolescentes: a dependência da tecnologia. O uso excessivo de telas é agravado por um problema cada vez mais recorrente nessa parcela da população: altos índices de ansiedade e depressão.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, revelam que um em cada dez brasileiros já recebeu diagnóstico de depressão. Entre os jovens de 14 a 26 anos, o tempo excessivo de tela tem sido associado a agravamentos no estado emocional e na saúde mental, com aumento no risco de ansiedade, distúrbios do sono e solidão.

“Passava o dia todo no escuro, deitada, sozinha e com o celular na mão, pois ali era o único espaço onde conseguia tirar da cabeça que eu não merecia viver”, diz a jovem, que enfrentou um forte quadro depressivo.

Quase metade dos brasileiros reconhece que a experiência nas redes sociais — com reclamações como comparações constantes, conteúdo estressante e interações superficiais — prejudica o equilíbrio emocional. Nesse grupo, 10% avaliam o impacto como muito negativo, proporção que sobe para 15% entre os jovens de 16 a 24 anos, conforme o estudo Panorama da Saúde Mental, do Instituto Cactus.

A psicóloga Thalita Lacerda, professora e mestre em psicologia, afirma que o uso compulsivo das redes pode estar relacionado a quadros de ansiedade. “O uso excessivo de telas pode ser feito por pessoas que têm muita ansiedade, por causa da liberação de dopamina que as redes proporcionam.”

Entretanto, o excesso de informação recebido por meio das telas “pode fazer com que sintam estar sempre perdendo alguma coisa, aumentando o transtorno”.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio já aparece como a quarta principal causa de morte no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

A psicóloga explica que “pessoas nessa idade ainda estão em fase de formação da personalidade e, junto ao uso de telas, acabam por desenvolver certo estado de solidão”. As plataformas podem “levar as pessoas a acreditar que estão socializando, quando, na verdade, estão ficando solitárias”.

“Deixar as drogas”

O relato de Júlia Morgado demonstra como o uso do celular se tornou uma forma de se isolar dos problemas. Incentivada desde a infância a usar computador e redes sociais, ela reconhece que o celular virou dependência. “Era o meu refúgio, uma espécie de esconderijo onde eu sentia que minha vida estava.”

A relação com os pais foi marcada por conflitos. “Eles sabiam que tirar meu celular de mim seria pior. Porém, uma vez eles ameaçaram fazer isso, e eu tive um colapso, brigando com eles”. Neste sábado (8), ela reflete e assume que sua reação foi como a de “alguém tentando começar a deixar as drogas”.

Sua mãe, a engenheira química Juliana Pires Morgado, lembra que Júlia “ficava a madrugada toda no celular. Foi muito difícil, porque no início ela não aceitava nenhuma intervenção. Não falava direito conosco”.

Aos poucos, a estratégia de impor limites de horário e estimular a convivência fora da tela trouxe resultados.

Para Thalita Lacerda, é preciso ampliar os espaços fora das telas, “fomentando encontros presenciais, práticas esportivas e trabalhos em grupo”.


A matéria foi publicada originalmente em: A Tribuna em conjunto com Rafael Brito

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