Na batalha pelo fim da transfobia, há busca por respeito e trabalho em Santos e na Baixada Santista

Mês do Orgulho para a comunidade LGBTQIAPN+ é acompanhado de luta cotidiana, também, contra a violência

Na batalha pelo fim da transfobia, há busca por respeito e trabalho em Santos e na Baixada Santista

SANTOS, SP — “Nós lutamos por respeito, dignidade e trabalho”, afirma Patrycia Nunes, drag queen e mulher trans. Com 28 anos de carreira, é presença marcante na arte drag regional ao se apresentar com o nome artístico de Pathy Miau. Aos 44 anos, diz que a vida artística a fez entender que “mulheres trans e travestis estão em todos os lugares, sempre progredindo”.

Apesar dos avanços legais dos últimos anos, a transfobia é uma batalha que a comunidade trava, lembrada também por todo o mês de junho, conhecido como o Mês do Orgulho para a comunidade LGBTQIAPN+.

Não há um censo nacional da população trans. Pesquisas e levantamentos de entidades como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e a RedeTrans estimam que cerca de 2% da população brasileira se identifica como trans, transgênero ou não binária — que não se entende como pertencente a um gênero específico.

A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) aponta que, de 2019 a 2022, o número de pessoas trans que fizeram a alteração de gênero dobrou. Em 2022, último ano com dados consolidados, foram 3.165.

Desafio diário

A transição de Patrycia ocorreu em 2012. Mas conquistas como a dela são exceção.

“A luta contra a homofobia é todo dia vivenciada pela comunidade”, afirma o advogado Paulo César Borgomoni Neto, de 30 anos. Com atuação voltada à diversidade, ele integrou a Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Vicente e preside a Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da mesma subseção.

Borgomoni aponta que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi um marco jurídico que permitiu a consolidação de outros direitos da comunidade, como sucessão e adoção.

Apesar dos avanços, a ausência de uma lei federal específica sobre crimes motivados por LGBTfobia evidencia, para o advogado, uma lacuna. “(Está) Apenas sob o entendimento de um tribunal, o que pode mudar a qualquer momento”, diz, ao se referir ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, em 2019, equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo.

De acordo com o Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH), projeto do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, quase 60 mil casamentos homoafetivos foram registrados entre 2013 e 2021, com aumento de 149% no período.

Borgomoni chama atenção para o destino de jovens LGBTQIAPN+ após completarem a maioridade em instituições de acolhimento. “Se esse jovem não tiver acompanhamento, fortalecimento e oportunidade, ele será o próximo em situação de rua”, afirma. “Para nós, é viver um dia de cada vez.”

Com diálogo e cultura, casa orienta e conscientiza

Para apoiar e acolher pessoas trans em dificuldades e adversidades, um grupo de membros comunidade LGBTQIAPN+ participa da House of DDD, hoje com 40 membros. Criada em 2007 pelo dançarino Francisco Henrich dos Santos, de 37 anos, a casa acolhia e auxiliava outras drag queens. A comunidade cresceu e se projetou como a primeira casa do tipo criada na região.

Francisco (à esquerda): acolhimento e ajuda. Marcos: conversar sem julgar (Arquivo Pessoal)

“Foi criada para que as pessoas se sintam pertencentes a um lugar que, às vezes, faz de tudo para você acreditar que não deveria estar ali”, afirma Santos. O grupo usa seu espaço na cena cultural para apresentações que também movimentam projetos de conscientização.

Conhecido como Rebecca Dior, Francisco Santos recebe quem não tem apoio familiar. Ele mesmo diz ter vivido esse embate em casa. “Minha mãe soube da minha sexualidade por outra pessoa e, durante um tempo, resolvemos manter segredo para a minha avó, que não entendia. Foi somente anos depois que conseguimos nos entender melhor.”

O criador da comunidade cita outra figura da casa: o dançarino Marcos Vinícius Corrêa, de 26 anos, para quem é possível “uma conversa com quem ter essa troca livre, sem julgamento”, na casa.

Com música, maquiagem e dança, a House of DDD movimenta eventos de Santos com festas culturais típicas da cultura LGBTQIAPN+ dos Estados Unidos nos anos 1980, e também trata do autocuidado, inclusive quanto à saúde. Planeja-se tornar a casa uma pessoa jurídica para obtenção de um espaço público para as instalações.


A matéria foi publicada originalmente em: A Tribuna em conjunto com Luccas Tamberi e Manuela Patrício

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