O ciclo constante do aspirante a escritor

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Santos é uma cidade cheia de histórias que podem ser contadas e, mais do que isso, imaginadas. É o que pensa Pedro Orta, que no ônibus a caminho da faculdade presta atenção em cada conversa ao redor, em busca de um bom gancho para desenvolver sua habilidade em contar histórias.

No banco à sua frente está uma mulher sentada, segurando o celular quase colado ao rosto, com os olhos fixos na tela iluminada. Em pé ao seu lado, Pedro vê sua curiosidade vencer, sem dar tempo de considerar se a espionagem é certa ou errada. Na tela do telefone, a desconhecida escreve em caixa alta que alguém, do outro lado da tela, era “IRRESPONSÁVEL POR PERMITIR QUE NOSSA FILHA TENHA FEITO ALGO ASSIM”.

Pronto. Pedro volta a prestar atenção no caminho, já que sua curiosidade havia munido a imaginação o suficiente para saber o que colocar no papel: uma história de terror em que o pai de uma menina permite que ela, adolescente, brinque de maneira sádica com bonecas vodus que possui dos colegas de escola, o que causou uma morte. A mulher e o ex-marido sabem que essa morte foi causada pela filha, porque semanas antes o pai havia comentado sobre o que a filha andava fazendo. E que, inclusive, havia achado a boneca de uma garota sem cabeça no quarto dela. A mãe pediu para que o pai fizesse a filha parar, mas era tarde demais. A menina morreu atropelada por um carro cujo pneu passou por cima de sua cabeça.

É provável que a moça à sua frente só estivesse reclamando sobre a filha ter voltado tarde para casa, ou que não tenha feito os deveres do colégio. Entretanto, para Pedro, era muito mais interessante pensar que Santos tinha uma adolescente que matava os colegas de quem não gostava através de vodus.

Histórias inexistentes com elementos da vida real sempre o ajudaram a desenvolver sua paixão pela escrita criativa. Não à toa, ele é mestre de uma mesa de RPG semanal, onde coloca seu potencial criativo no máximo para entreter os amigos. “Eu escrevo as histórias que imagino para exercitar a criação, até para mesmo pro jogo, mas isso não é exatamente necessário. Dá para desenvolver na própria cabeça e, querendo ou não, isso funciona como uma espécie de fuga também. Faço muito durante as aulas”.

O estudante de Direito considera estar na universidade uma “perda de tempo”. Não quer exercer a advocacia, ainda que sua família insista que esse é o melhor caminho. Ele prefere imaginar — e escrever — uma realidade onde cria um best-seller e se torna a nova estrela do terror literário nacional (e quem sabe mundial) ou vende um grande roteiro vencedor de festivais internacionais de cinema. Tudo isso antes do curso acabar, para finalmente provar aos pais que, na verdade, merecia ter feito algo que o ajudasse a seguir seu sonho de ser um grande contador de histórias. Mas, de novo e como sempre, sua razão logo desarma a imaginação, ao afirmar que as chances de ele se tornar um mero advogado são altas.

“Pelo menos ainda tenho o RPG e um computador, caso isso aconteça. Vai que um dia mando algum dos meus contos para alguma editora e eles se interessam”. E a imaginação toma conta de novo, num ciclo constante, onde espera que um dia a razão não a desarme, mas sim constate que o sonho, agora, é real. “Vai que”.

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